(Este "Credo" foi escrito quando o autor se encontrava na prisão, como prisioneiro político da ditadura militar brasileira, entre 1969-1973)
Não creio no deus dos magistrados nem no deus dos generais ou das orações patrióticas. Não creio no deus dos hinos fúnebres nem no deus das salas de audiência ou dos prólogos das constituições e dos epílogos dos discursos eloquentes. Não creio no deus da sorte dos ricos nem no deus do medo dos opulentos ou da alegria dos que roubam ao povo. Não creio no deus da paz mentirosa nem no deus da justiça impopular ou das venerandas tradições nacionais. Não creio no deus dos sermões vazios nem no deus das saudações protocolares ou dos matrimônios sem amor. Não creio no deus construído à imagem e semelhança dos poderosos, nem no deus inventado para sedativo das misérias e sofrimentos dos pobres. Não creio no deus que dorme nas paredes ou se esconde no cofre das igrejas. Não creio no deus dos natais comerciais nem no deus das propagandas coloridas. Não creio nesse deus feito de mentiras tão frágeis como o barro, nem no deus da ordem estabelecida sobre a desordem consentida. O Deus da minha fé nasceu numa gruta. Era judeu, foi perseguido por um rei estrangeiro e caminhava errante pela Palestina. Fazia-se acompanhar por gente do povo, dava pão aos que tinham fome, luz, aos que viviam nas trevas, liberdade, aos que jaziam acorrentados, paz, aos que suplicavam por justiça.
O Deus da minha fé punha o homem acima da lei e o amor no lugar das velhas tradições. Ele não tinha uma pedra onde recostar a cabeça e confundia-se entre os pobres. Só conheceu os doutores quando estes duvidaram de sua palavra. Esteve com juizes, que procuravam condená-lo. Foi visto entre a polícia, preso. Pisou o palácio do governador para ser chicoteado. O Deus da minha fé trazia uma coroa de espinhos. Vestia uma túnica toda tecida de sangue. Dispôs de batedores que lhe abriram o caminho do Calvário, onde morreu entre ladrões na cruz. O Deus da minha fé não é outro senão o filho de Maria, Jesus de Nazaré. Todos os dias ele morre crucificado pelo nosso egoísmo. Todos os dias ele ressuscita pela força do nosso amor.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
O SENHOR DA MINHA FÉ (Frei Betto)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Caso deseje, escreva alguma coisa...